domingo, 26 de julho de 2009

SALVADOR NUNCA TEVE UMA RÁDIO DE ROCK





Carta de produtor carioca Alexandre Figueiredo para emissora baiana na revista BIZZ que tenta elevar reputação da antiga rádio 96 Fm , dizendo que nunca foi realmente de rock...CONFIRA!!!
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Na edição de maio de 2007 da revista Bizz, foi publicada uma carta de um antigo produtor da 96 FM de Salvador (Bahia), Celso Vieira, que afirmava que, ao ler o depoimento de Luiz Antônio Mello, o idealizador da Fluminense FM, se lembrou dos "bons tempos" da emissora baiana, que ele considerava "rádio rock".

Infelizmente é um grande equívoco do produtor, que parece ser um dos primeiros a embarcar no saudosismo dos anos 90 ancorado pela Bizz e pela MTV. Vieira credita o "sucesso" da 96 FM (conhecida formalmente como Rádio Aratu) ao fato dela ter tocado bandas como Nirvana, Pearl Jam e Pixies, como se isso fosse tudo o que aconteceu no universo do rock daquela época.

O saudosismo dos anos 90 já dá suas caras em 2007, ancorado, por um lado, pelo grunge de Nirvana, Pearl Jam e outros, e, por outro, da primeira linhagem contemporânea de bregas-popularescos, como Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar e Latino. Quem viu com olhar crítico o confuso revival dos anos 80 - em que, de uma forma aleatória, creditava como "anos 80" tudo que estava em evidência na televisão daquele tempo, incluindo, sobretudo, seriados dos anos 60 - sabe que o revival dos anos 90 já estava previsto no cardápio, e nomes como Tiririca, Walter Mercado, Ratinho e É O Tchan estão na sala de espera da oportunidade de passarem a falsa imagem de "clássicos".

Com isso, vem também o saudosismo das ditas "rádios rock" - não as rádios especializadas em rock dos anos 80, mas as rádios comerciais que passaram a usar vitrolão "roqueiro" e a vender o rótulo de "rádios rock" sem significar muito para o segmento - , ancoradas sobretudo na hoje "façanha" de tocar as bandas grunge e os Guns N'Roses, bandas completamente establishment nos anos 90 mas que, diante da nivelação por baixo na música que transforma o Brasil numa verdadeira terra de cego, quando qualquer coisa que pareça "razoável" é tida como "genial" não por aquilo que representa, mas pelo que deixa de representar (é aquele refrão "não é aquela maravilha, mas pelo menos não se compara com aquele outro absurdo"). Dessa forma, a única "virtude maior" das ditas "rádios rock" de então é evitar tocar as coisas mais óbvias do hit-parade difundido no Brasil.

DECLÍNIO DO RADIALISMO ROCK E ATRASO DE SALVADOR FAVORECERAM A TRAJETÓRIA CONFUSA DA 96 FM

Para citar um pouco do que foi a rádio 96 FM de Salvador, devemos citar dois fatores: um é a diluição do radialismo rock do final dos anos 80, e outro a questão do atraso histórico à que se condena, há séculos, a capital baiana.

A diluição do radialismo rock se deu a partir do Rock In Rio. O segmento rock virou uma mina de ouro e de repente rádios de "só sucesso" passaram a perseguir o gênero, a maioria inserindo músicas de rock em sua programação. No entanto, algumas rádios começaram a cismar com o estilo, como a Cidade e Transamérica, que no Rio de Janeiro chegaram a contratar profissionais vindos da Fluminense FM, no entanto sem transformá-las em clones da emissora niteroiense nem em levantar a "bandeira" do radialismo rock. Uma rádio foi criada no final de 1985, a 89 FM, um cruzamento de experiências observadas na carioca Estácio FM em 1983-1984 e na Fluminense FM de 1984-1985. A rádio chegou a tocar até as bandas da Baratos Afins, mas não com a freqüência insinuada pelos exaltados defensores (críticos musicais que sintonizavam a emissora no final da noite). Na verdade, a 89 FM de 1985-1988 era muito mais moderada do que se fala, sendo uma rádio de rock que apenas cumpria o "dever de aula", tocando apenas um pouco mais do "feijão com arroz" roqueiro durante o horário comercial e ousando o repertório no horário nobre (a noite) e na madrugada.

A diluição da 89 FM se deu porque ela surgiu meio infectada pelo vírus do hit-parade. Ela havia sido, na verdade, uma "conversão" da antiga Pool FM numa "rádio alternativa", aparentemente ignorando que o radialismo rock estava bem servido pela 97 Rock, do ABC paulista. A emissora, do contrário da Fluminense - que contratou profissionais que nunca haviam trabalhado em rádios pop - , contratou locutores vindos da Rádio Cidade paulista, do mesmo sócio da 89 FM na época, o Sistema Jornal do Brasil. Com isso, a 89 FM, com o tempo, abriu seus microfones para clones baratos do Fernando Mansur, o que fazia soar estranho sair de uma música do Killing Joke para entrar um locutor que parecia estar falando com a empregada doméstica fã de música brega ou para a drag queen fã de disco music.

O estilo representou uma queda de qualidade imensa no radialismo rock, mas a decadência foi compensada pelo sucesso comercial e pelo oportunismo profissional. Como o estilo pop lançado pela carioca Rádio Cidade em 1977 gerou uma demanda gigantesca de locutores, uma parte deles, vendo o mercado saturado, começaram a se infiltrar no radialismo rock. Usavam como desculpa o diploma de radialismo - já que, em contrapeso, os locutores autênticos de rock eram amadores no radialismo, trabalhavam o rádio por intuição - , embora seu conhecimento de rock fosse abaixo do medíocre, mais na base do "ouvi falar".

A fórmula então virou uma praga a partir da 89 FM, que aproveitou a não-expansão do modelo Fluminense FM (que, incapaz até de pagar contas telefônicas, viu seu formato pioneiro se isolar nos Estados do Sul e Sudeste) para expandir seu formato diluído. A equipe era de locutores pop, que disfarçavam sua ignorância e até aversão ao rock pela ação de verdadeiros ghost workers, que eram os produtores, que funcionavam como os cérebros dessas rádios. O formato era totalmente hit-parade, com repetição de músicas, muita falação em cima e locução "bonitinha", quase maricas. O marketing dava a impressão de que eram "rádios radicalmente rock" mas o que se ouvia era uma programação domesticada que nada tinha a ver com as rádios de rock originais. Com essa fórmula, qualquer rádio popularesca viraria "rádio rock" apenas mexendo em dois ou três produtores.

Juntando isso ao quadro de atraso da cidade do Salvador, na Bahia, vemos o quanto, até agora, a capital baiana nunca presenciou uma rádio local realmente de rock, se contentando, quando muito, com programas esparsos de rock, locais ou de rede, ou então com a transmissão de web radios de rock pelo computador.

O atraso a que se condena Salvador, cidade mergulhada num provincianismo conseqüente da ascensão progressiva do antigo deputado Antônio Carlos Magalhães (político baiano de morna expressão nacional no início dos anos 60), convertido em um poderoso líder populista de direita. A cidade se degradou e muitas cabeças pensantes da capital baiana migraram, já nos anos 60, para o eixo Rio-São Paulo. O progresso cultural da cidade, que depois de tanto adormecimento havia restabelecido rota no início dos anos 1950, decaiu seriamente a partir de 1964, não sendo superada sequer após surgir a globalização e a Internet na forma que conhecemos.

Salvador era uma cidade cosmopolita, capital do Brasil, nos séculos XVI e XVII. Era a cidade mais moderna do país, durante o ciclo econômico da cana-de-açúcar. Declinando este ciclo, devido à concorrência do Caribe na produção da mesma cana, e da descoberta do açúcar de beterraba pelos europeus, o Brasil viu nascer outro ciclo econômico, o do Ouro, sobretudo na área equivalente ao Estado de Minas Gerais. A capital do país mudou-se de Salvador para o Rio de Janeiro, rendendo até hoje uma rivalidade entre as duas cidades. Salvador, que integrava a rota das navegações européias, também perdeu esse privilégio quando outros caminhos marítimos foram descobertos.

Atualmente Salvador, apesar do marketing que superestima a cidade (tratada, na prática, feito uma dondoca que aparece na revista Caras), acumula derrotas diante de outras capitais do país. Perde para as cidades do Sul (Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre) quanto ao cenário sócio-cultural. O mesmo em relação às cidades cosmopolitas Rio de Janeiro e São Paulo. Perdeu a disputa para Belo Horizonte na posição de terceira maior capital no Brasil (a derrota só não é reconhecida pelos baianos).

No Nordeste, a situação de Salvador se torna vergonhosa (e olha que a Bahia e o Sergipe, na prática o "Estado-satélite" da Bahia, pertenceram à antiga região Leste, ao lado do Rio de Janeiro, Distrito Federal, Minas Gerais e Espírito Santo, antes de surgir a SUDENE). O carnaval de Recife tem maior relevância cultural do que o de Salvador, que envolve um pop brega ultra-comercial, sob o rótulo de axé-music. Recife, ao lado de Fortaleza, são as maiores potências do Nordeste. Para piorar, enquanto Salvador vive o estrelismo midiático que esconde sua escassez cultural (a maior biblioteca da cidade, a Biblioteca Pública do Estado, por exemplo, tem um acervo vergonhosamente precário), cidades como Natal e João Pessoa, se não deixaram de se tornar provincianas, trabalham para superar o atraso, feito duas tartarugas que tentam correr diante da acomodação da arrogante "lebre" baiana, que descansa acreditando na vitória fácil.

No rádio, deve-se levar em conta o atraso por dois principais aspectos. Um é o bloqueio de crescimento do rádio baiano, limitado, no final dos anos 60, a menos de meia-dúzia de emissoras. O rádio AM, estagnado, acabou prejudicado pela politicagem que até hoje ronda as FMs. Outro aspecto é o coronelismo eletrônico que se tornou o rádio FM em Salvador, sobretudo por influência de políticos originários do carlismo (doutrina política de Antônio Carlos Magalhães), como Mário Kertèsz, Marcos Medrado, Cristóvão Ferreira e Pedro Irujo. Felizmente a Rádio Sociedade da Bahia, transmitida em AM, mantém a liderança radiofônica superando até as FMs mais ouvidas e procurando alimentar o mercado para outras AMs (Excelsior e Cultura, ainda precárias), mas houve um tempo que até a Sociedade chegou a ser abalada, não por uma queda de audiência brusca, mas pelo boato de que Mário Kertèsz, ao contratar profissionais da Sociedade para sua Metrópole FM, teria também tirado os pontos do Ibope da AM baiana. O boato foi prontamente desmentido, sobretudo na Internet (os sites Preserve o Rádio AM e Rádio AM Nordeste participaram dessa missão informativa de desmentir a boataria).

A hegemonia das FMs politiqueiras cria uma falsa segmentação radiofônica, baseada no populismo conservador que Kertèsz, Medrado e outros promovem para os soteropolitanos. A concentração de poder das FMs é um elemento evidente: mesmo a segunda AM mais ouvida tem uma situação de mercado pior que a da FM menos ouvida. Cerca de metade das FMs adota programação imitação de AM. As FMs que adotam formato imitação de rádio AM, Metrópole e Itapoan, juntas, não chegam sequer a 45% da audiência da Rádio Sociedade, mas detém uma reserva de mercado que tenta rivalizar por igual à histórica AM baiana. A baixa audiência é disfarçada pela poluição sonora estratégica, sobretudo durante as transmissões esportivas, o que dá uma impressão de "falso poder de presença" dessas FMs entre o público baiano. Conta-se que taxistas, donos de botequim e até frentistas de postos de gasolina (que, mesmo fechados, mantém a barulheira dessas FMs até de noite) são pagos pelas FMs (através de um acordo com suas associações de classe) para sintonizá-las em horários estratégicos (como o programa de Mário Kertèsz e a jornada esportiva de Djalma Costa Lino, por exemplo).

Com isso, a segmentação, caricata e limitada, se torna superficial. Durante um bom tempo, por exemplo, a Rádio Educadora tinha que fazer papel de três FMs ao mesmo tempo, na primeira metade dos anos 90: rádio de pop adulto, rádio de música sofisticada (jazz, soft rock e MPB) e rádio de música erudita ou orquestrada em geral. A Globo FM deturpa o formato de rádio adulta numa gororoba musical disfarçada por uma locução sisuda e uma postura arrogante de pseudo-sofisticada. Nesse contexto lamentável se encontrou, durante alguns anos, a rádio 96 FM de Salvador.

BREVE HISTÓRICO DA 96 FM DE SALVADOR


A 96 FM surgiu para ser uma versão baiana da rádio carioca 98 FM, de perfil popularesco. A 98 FM, surgida em 1978, tirou do ar a histórica rádio de rock Eldorado FM, a Eldo Pop, comandada pelo radialista Newton Duarte, o Big Boy, comunicador que marcou a história da Mundial AM, nos anos 60 e 70. Apesar dele ser um importante locutor, a Eldo Pop funcionava sem locução, talvez por conta das pressões da ditadura militar. Big Boy morreu de enfarte em 1977, mas a Eldo chegou a seguir trajetória sem ele. Foram motivos comerciais que fizeram a Eldo Pop ser extinta, para competir com a Rádio Cidade, emissora pop criada em 1977 no pleno feriado do Dia do Trabalho, mas com o foco de público ampliado para a Zona Norte carioca e Baixada Fluminense.

Como a Rádio Cidade, a 98 FM também procurou expandir sua rede. Nessa época as redes não faziam transmissão unificada da sede, mas eram emissoras absolutamente locais que apenas reproduziam o padrão estético e profissional da sede, que enviava representantes para determinar o formato em suas regiões. A 98 FM implantou, por exemplo, a 102 FM em Belo Horizonte e a 96 FM em Salvador.

A 96 FM era ligada ao Grupo Aratu, de Joacy Góes, que mantinha uma parceria de representação baiana das Organizações Globo. A TV Aratu (Canal 4) era afiliada da Rede Globo. Era por bem a 96 FM, ou Rádio Aratu Ltda., se tornar a 98 FM baiana, num formato popularesco que as gerações recentes pouco conhecem: entre um Fábio Jr., Wando ou cantoras bregas de um só nome como Adriana e Kátia, havia um Stylistics, Lionel Richie, Michael Jackson ou mesmo sucessos ultra-massificados de rock, como o cantor Peter Frampton, quando estes alcançavam os leigos ao gênero. Desde os anos 90, as rádios popularescas tocam repertório 98% nacional e o hit-parade estrangeiro, como um todo, migrou para a diluição das rádios "sofisticadas", que na prática juntam o formato hit-parade da Rádio Cidade de 1977 com a locução de "leitor de bula" das rádios pré-Cidade.

O único programa roqueiro que havia foi o "Rock Special". Na verdade, era um programa originalmente feito pela Eldo Pop, dedicado a um artista ou evento específicos de rock, que, sendo mantido aparentemente pela 98 FM, foi duramente empastelado, tocando até Bee Gees, Michael Jackson e a trilha do filme Footlose. Na Bahia, o programa teve uma variação operacional, sendo apresentado, na virada dos anos 70 para os 80, por um "titio" que havia arriscado vender discos de rock numa loja em Salvador e, mais tarde, seria conhecido pela banda Camisa de Vênus, e por suas investidas solo, além da parceria com o histórico roqueiro Raul Seixas: Marcelo Nova.

A parceria do Grupo Aratu com as Organizações Globo acabou quando Antônio Carlos Magalhães, então ministro das Comunicações do governo José Sarney, em 1985, favoreceu o empresário Roberto Marinho no caso da empresa de telecomunicações NEC (administrada pelo empresário Mário Garnero, pai do empresário e celebridade Álvaro Garnero) e, como retribuição, foi firmada uma parceria com um novo grupo de mídia (mais tarde chamado Rede Bahia). A TV Aratu perdeu a representação da Rede Globo para a TV Bahia (Canal 11) e, com isso, a 96 FM deixou também de ser a 98 FM baiana. No entanto, o grupo empresarial de ACM (administrado pelo filho ACM Jr., pai de ACM Neto e suplente do patriarca no Senado), que inclui também o jornal Correio da Bahia e a Gráfica e Construtora Santa Helena, preferiu criar uma franquia da carioca Globo FM (90,1 mhz e http://www.gfm.com.br ), na verdade chamada Iemanjá FM, que se tornou um projeto estereotipado de rádio adulta. Em 2006, outra rádio surgiu ancorada pela Rede Bahia: a Bahia FM (88,7 mhz), de perfil popularesco.

No final de 1989, influenciada pela recente mudança da rádio paulista 89 FM - que juntava todo o perfil da Rádio Cidade do final dos anos 70 com o vitrolão roqueiro - , a 96 FM passou a se auto-proclamar "rádio rock", num repertório que não era mais que uma gororoba. Entre faixas mais acessíveis de Jesus & Mary Chain e Lloyd Cole solo e músicas de trabalho da turma do indie dance (novidade musical da época), como Stone Roses e Happy Mondays, além do feijão-com-arroz "roqueiro" das paradas de sucesso, havia porém inserções de pop dançante como MC Hammer, New Kids On The Block e as "sensações" Deee-Lite, Technotronic, Snap! e Blackbox.

Não havia locução apropriada para rádio rock e os locutores, ainda por cima, falavam em cima das músicas. Pior: tinha um programa especializado em dance music e outro em música romântica (tocava até Whitney Houston e seu tema choroso do filme O Guarda-Costas, com a própria no elenco), e um programa de surfe que era apresentado de noite, e não de manhã, horário em que os surfistas eventualmente realizam competições. E, com todo o respeito e admiração ao músico Stevie Wonder, não fica bem uma "rádio rock" tocar em todo início das 18h a "Ave-Maria" de Schubert, a pretexto religioso.

Em 1992, a 96 FM "amarrou" sua programação naquilo que a indústria fonográfica entendeu como "rock". Sobretudo a barulheira grunge e seus hits fáceis. A programação ficou menos gororoba, porém mais repetitiva. O programa de dance music foi mantido e o de surfe (noturno) também. O "Rock Special" passou a imitar o formato do programa Novas Tendências, transmitido em rede na época, e o RS até teve a boa apresentação de Luiz Cláudio Garrido (que, fisicamente, era meio parecido com Luiz Antônio Mello e era jornalista de A Tarde), que até tinha boa locução, apesar do leve sotaque baiano. Embora com alguns tropeços (como creditar os Pixies como se fossem ingleses), o "Rock Special" desta fase era o único programa decente da emissora, que ainda apostava no projeto "Rock 96", com bandas que requentavam o som do Capital Inicial, Ira! e Legião Urbana sem a menor criatividade.

A 96 FM pagou pelo pretensiosismo, anunciado pela vinheta de muito mau gosto onde um locutor dizia "Aqui toca..." para depois vir a voz de um cara pândego, parecendo arrotar, dizendo "Rock" como se fosse "Wrock". Tentou até fazer lobby com lojas de discos alternativas e com produtoras baianas de eventos roqueiros, mas não deu certo. Em setembro de 1993, a rádio virou pop, para, em 1995, se tornar afiliada da Rede Aleluia, da Igreja Universal do Reino de Deus.

A 96 FM era coordenada por Leandro Netto, o Léo Fera, que mais tarde foi empresariar um grupo de axé-music, Tiete Vip's. Alguns locutores da 96 FM, com a venda da emissora a Edir Macedo, migraram para a Piatã FM, rádio de brega-popularesco.

O astro da 96 era Thiago Mastroianni, que fazia aquele estilo "mauriçola". Hoje ele, com o mesmo estilo de locução, é um dos apresentadores e repórteres do programa "Globo Esporte", na edição baiana da TV Bahia. É o único elo de ligação real entre a 96 FM e a niteroiense Fluminense FM: a locutora da Flu, a belíssima Mylena Ciribelli, apresenta a versão nacional do programa televisivo.

Na prática, o espírito da 96 FM reencarnou no Rio de Janeiro através da experiência da Rádio Cidade entre 1995 e 2006. Portanto, não é difícil os cariocas e fluminenses imaginarem como foi a 96 FM.

SÍNDROME DE ERNESTO GEISEL
- O pior das rádios comerciais que investiram em rock é adotar a metodologia do governo Ernesto Geisel (1974-1977): mudança lenta e gradual. Muitas rádios quebraram a cara porque, no discurso, anunciavam uma mudança radical de formato, mas na prática adotavam tímidas mudanças que impacientavam os ouvintes.

Essas rádios se dirigem a um público jovem, predominantemente adolescente. Um público normalmente rebelde e impaciente. Certamente a falta de visão de uma equipe não-especializada (geralmente só um trio de produtores é tudo o que essas rádios podem ter de especialistas em rock) faz com que a evolução siga passos de lesma. A lógica (equivocada) de seus diretores é ajustar a rádio conforme os resultados do Ibope, sob o pretexto de não desagradar gregos e troianos, gatinhas e roqueiros radicais. Acaba desagradando, mesmo, tanto uns quanto outros.

Dessa forma, para as rádios substituírem locutores mauricinhos por locutores roqueiros de verdade, levariam de cinco a dez anos. Para a locução deixar de ser mauriçola, seriam dez ou quinze anos. Para o repertório deixar de ser repetitivo, seriam quinze ou vinte anos. Enfim, quando uma rádio desse porte conseguir se aproximar ao de uma autêntica rádio de rock recente, o ouvinte adolescente terá se convertido num adulto que já tem os filhos em idade escolar. Por isso mesmo é que, não agüentando esperar mais de vinte anos para uma rádio comercial se tornar "alternativa" de verdade, o público roqueiro parte para repudiar essas rádios. Com muita razão.

2 comentários:

  1. Esse logotipo nunca pertenceu à rádio 96 FM de Salvador. É de outra rádio, talvez a 96 FM de Curitiba.

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  2. Saudade de verdade!

    Ah, logomarca é outra,lembro.

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