
Michael Jackson numa das cenas do clip no Pelourinho - BA
A morte do Michael Jackson foi marcada, jornalisticamente, pelo cuidado para não dar barrigada. Depois da falsa notícia sobre a morte do Sílvio Santos, todo o cuidado é pouco. Esclarecendo: barriga, no jornalismo, é quando um veículo tem a intenção de dar uma notícia em primeira mão – um furo – mas acaba divulgando uma informação falsa, a barriga. O Jornal Nacional abriu hoje dizendo que Michael Jackson estava em coma e que alguns veículos estavam divulgando sua morte, mas que ela ainda não era oficial e que a CNN ainda não havia confirmado. O cuidado acabou deixando a Globo para trás, embora ela tenha se destacado justamente por essa cautela com a informação prestada. Já a Band iniciou a transmissão de seu telejornal afirmando que o cantor estava morto embora não houvesse a confirmação oficial. Se fosse realmente um boato, teria ficado feio.
Mais uma vez, a internet aparece como o destaque da cobertura no quesito furo. Não só a internet, mas o twitter. Segundo o Último Segundo, do IG , o site de celebridades TMZ.com e o Los Angeles Times foram os primeiros a dar a informação. Outro a dar em seguida foi a NBC, mas ela correu mesmo pelo twitter. Nesse caso, a disseminação da notícia foi pela rede de microblog. A ponto de nos fazer questionar se o twitter não está confundindo os meios tradicionais de jornalismo.
Para efeito de informação, a morte do Sílvio Santos foi anunciada pelo site de fofocas O Fuxico, do Terra. Segundo Esther Rocha, a diretora de conteúdo do site, ele foi invadido por hackers que plantaram a informação falsa. Depois disso, restou a desconfiança nos meios mais tradicionais de jornalismo. Uma pessoa comentou no twitter: “Só vou acreditar que o Michael morreu quando der 1º página no G1! Me decepcionei com o UOL!”. Isso reflete essa desconfiança e a velha crença de que a coisa só acontece quando dá na Globo. Aliás, é justamente por essa crença – para manter essa credibilidade – que a Globo teve tanto cuidado, e acabou sendo uma das últimas a noticiar.
Às 19h28min, o portal G1 deu que jornais e tvs anunciavam sua morte, mas que ela não era oficial. A confirmação pelo portal veio às 20h35min, mais de uma hora depois. A morte, ainda segundo o site, teria acontecido às 17h07min pelo horário de Brasília. Ela foi anunciada às 19h15min no Los Angeles Times . O Estadão confirmou ainda mais tarde, às 20h48min.
A cobertura completa da morte de Michael Jackson é meio óbvia em todos os veículos. Uma retomada da sua carreira, da sua vida, os aspectos polêmicos, a importância da música, a tristeza dos fãs e por aí vai. O que fica dessa história toda é essa disputa por minutos pela informação em primeira mão, que acontece apenas na internet. É a transformação do jornalismo explicitada em um fato concreto. Hoje em dia, os grandes veículos não brigam mais pelo furo, embora dar uma notícia com um atraso significativo – digamos meia hora – seja quase um pecado. Essa velocidade do jornalismo é um reflexo da velocidade do mundo pós-moderno. Afinal, o que importa a que horas exatamente o cantor morreu? Não é mais importante cuidar para dar a informação com mais qualidade e mais profundidade?
Ok, esse não é um caso de jornalismo investigativo, mas as mudanças estão claras, evidentes. A busca pelo primeiro lugar na audiência passa muito mais pela credibilidade da informação do que pela exclusividade. Pena que a qualidade acabe ficando a desejar tanto nos grandes quanto nos pequenos, tanto na TV quanto na internet ou no jornal impresso.

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