sábado, 28 de fevereiro de 2009

Adeus a um amigo honesto


Conheci André Az nos corredores das rádios Cidade Fm e JB Fm quando ele fotografava para o Jornal do Brasil , Era um daqueles fotógrafos que fazem o repórter sorrir na hora em que o chefe da fotografia o aponta para a missão. “Vai você, A-Zê”, dizia o chefe. A frase significava que o resultado seria uma reportagem tranquila, com excelentes fotos e sem nenhum dos famosos atritos entre repórter e fotógrafo. Era um cara dócil, que gostava de esportes radicais – me lembro que bastava ter alguma matéria em altura acima de 40 centímetros que o Az logo montava algum equipamento extra. Certa vez, praticamente escalou o Pão de Açúcar para produzir fotos melhores. Era a cobertura de um evento publicitário, noivas atravessando a linha do bondinho. Az sorriu de véspera quando soube que envolvia riscos, emoções fortes, alturas, cabos de aço e escaladas.
Eu tenho certeza de que em nenhum momento de seu fim brutal o André Az achou que estava vivendo emoções fortes. Ele nunca considerou violência como algo que pudesse gerar emoções – violência só gera violência e ódio, nunca uma emoção de verdade, nada a ver com as vertigens da arte de um cara meio caladão mas que preferia falar com sorrisos.A vida do Az foi bem típica do jornalismo: pulando para lá e para cá, trocando de emprego, fazendo frilances. Trabalhou no jornal Avenida Central, hoje extinto, mas então uma idéia diferente, uma maneira singular de abordar o Centro do Rio. Passou pelos cadernos regionais do Jornal do Brasil. E finalmente, foi para O DIA, trabalhar na sucursal da Baixada – ainda que muitas vezes a sede central requisitasse seus serviços.O Az conseguiu, para mim, morrer duas vezes - pois me deu dois sustos, essa notícia trágica. Primeiro, soube que ele morrera em um acidente de moto, na noite da Avenida Brasil. Depois, ao chegar à redação na qual trabalho hoje, soube que André Az foi baleado antes de perder o controle da moto e ir ao chão. A gente sabe que o bandido é impessoal, que a única coisa que o bandido tem à frente dos olhos é o desprezo pela vida alheia. A gente sabe também que dificilmente o bandido conhecia o André Az. E, se conhecesse, talvez não gostasse de seu jeito amistoso, de falar com respeito com todo mundo, de saber conviver com os colegas, com os amigos, de ter humildade e capacidade. Bandido odeia tudo isso. É a emoção forte do bandido: ódio.Mesmo assim, quando eu soube dos tiros, perguntei várias vezes: como alguém pôde atirar três vezes no Az? E continuo achando a minha pergunta bem lógica. Sabem por quê?Porque nesta cidade, qualquer sofisma é lógica. Numa cidade em que, na noite da volta do feriado de Carnaval, bandidos conseguem atirar três vezes e escaparem impunemente, é claro que tudo pode acontecer. Numa cidade em que o abandono da Avenida Brasil, repito, a entrada da cidade, é tanto que bandidos circulam atirando livremente, qualquer absurdo é lógico.Mas não tem nada não, Az. Foi azar o seu. Logo vai aparecer alguém da PM citando estatísticas e dizendo que os homicídios foram reduzidos. Você, Az, morreu, mas se os homicídios caíram, está tudo indo bem. O comandante do Batalhão de Vias Especiais (não o conheço) deve estar no caminho certo. Os bandidos, pelo jeito, também estão. Os especialistas e autoridades vão dizer que o tráfico foi expulso do Dona Marta e da Cidade de Deus, que o PAC no Alemão vai acabar com o crime (apesar de não entrar mais polícia no Alemão), e que foi tudo uma fatalidade, um caso isolado. E ninguém vai ser preso, ninguém vai ser punido. E, claro, nenhuma entidade de defesa dos direitos humanos vai aparecer, a menos que um dos bandidos seja preso e maltratado no momento da prisão.O que vai nos restar, a nós, amigos do André Az, é a consciência de termos convivido com um sujeito que pautou sua vida pelo bem. Que não roubou, que não recebeu propina, que não matou, que não extorquiu, que não sequestrou. Apenas trabalhou honestamente e com ética. Talvez se fosse o contrário, se ele fosse bandido, estaria em alguma quadra de escola de samba ao lado de bicheiros, ou em algum morro ganhando dinheiro vendendo drogas ou explorando TV a cabo pirata ou mesmo van clandestina (e subornando autoridades para fazê-la circular), ou, digamos, instalando maquininhas caça-níqueis, o Az não estaria morto. E ainda estaria com mais dinheiro no bolso, em vez do salário sempre mais ou menos de jornalista sério, trabalhador – ainda que ele estivesse em uma empresa - O DIA - que costuma cuidar muito bem dos seus profissionais.
Mas infelizmente, o Rio de Janeiro não é mais um lugar seguro para quem é honesto.
Valeu meu amigo Deco pelas dicas fotograficas...
A direção do jornal ODIA lamenta profundamente a morte prematura desse excelente amigo e profíssional, dotado de um caráter irrepreensível.

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